
Não era muito tarde. Assistia despretensiosamente a um
programa de televisão enquanto aguardava a outro que viria logo em seguida. Era
um programa de auditório, o animador entrevistava a um grande astro da música,
do cinema e da televisão brasileira. Os dois relembravam momentos da carreira
do convidado que, referindo-se a um velho e grande amigo, pronunciou a seguinte
frase “ainda bem que deu tempo”! Pronto!
“Desabei”! Eu que há exatos oito meses
teria vivido a maior e mais dolorosa tragédia da minha vida, a prematura morte
de meu jovem irmão Fábio com apenas 30 anos, do qual ainda hoje, em alguns
momentos, padeço das mesmas inexplicáveis dores do dia seguinte àquele tão duro golpe, Parei! Com o coração
ainda um pouco dilacerado e meio sem teto, sem chão, talvez como se a bordo de
um barco a deriva em meio ao oceano perguntas sem respostas. Porém, depois de
algum tempo, algumas reflexões, consegui aos poucos me restabelecer e procurei
a partir daquele momento tentar ver as coisas, mesmo as fatalidades, por outra
vertente, outro ângulo. Muito embora saibamos que os mistérios de Deus sejam
para nós ininteligíveis, devem ser ao menos, aceitáveis.
Hoje, faz dez meses. Não posso imaginar que diferença
fará daqui a dez anos. Afinal de contas, dez dias, dez meses, dez anos... É
tudo como se fosse ontem. É uma coisa que só quem experimenta pode compreender,
porque explicar é praticamente impossível.Bem, mas para não parecer sensacionalista e ficar
aqui remoendo coisas tristes e desagradáveis, lembremos que em nossas vidas
também há coisas maravilhosas e é sobre estas que pretendo escrever daqui por
diante. Talvez, por uma ou outra razão, muitas delas terei que omiti-las. Não
tenho a genialidade dos grandes escritores, nem tampouco a habilidade daqueles
que no ato de escrever, o fazem com muita maestria. Para ser sincero, não sei
nem porque razão estou fazendo isso.Retomando ao raciocínio inicial, faço a você um
convite a uma reflexão sobre a frase que intitula este texto “ainda bem que deu
tempo”! Quanto a mim, tantas coisas me vieram à mente ao ouvir-la,
principalmente porque às vezes julgo-me extremamente ingrato para com nosso
Criador Soberano, ao ponto de nem lembrar-me de agradecê-lo pelas coisas boas
que me são concedidas. Mas posso afirmar uma coisa, ao ouvir a referida frase,
recordei os momentos que meu irmão e eu jogamos futebol, contamos piadas,
sorrimos um do outro, defendemos nossas convicções... Afinal de contas, éramos
grandes amigos. Ele era palmeirense e eu... Ainda bem que deu tempo! Essa frase tocou-me tão profundamente que hoje a
repito inúmeras vezes ao dia. Razões é o que não me faltam. E cada vez mais
sinto a necessidade de dizê-la incansavelmente. Basta lembrar-me de coisas
boas, deparar-me com coisas e momentos
bons ou até algo que não me seja muito agradável, inconscientemente acabo por
falar, ainda bem que deu tempo!
Por
isso, à família, aos colegas de estudo, companheiros de trabalho, aos
professores, alunos, às centenas de amigos e amigas conquistados em toda uma
trajetória de vida, que bom poder dizer-vos “ainda bem que deu tempo”. Aos que
vi partir tão cedo, aos que pude dar um abraço de chegada... Afinal, mais ou
menos profundas, todos que passam por nós deixam em nossas vidas as suas
marcas. Como diz Antoine de Saint-Exupéry em sua magistral obra, O Pequeno
Príncipe “Aqueles que passam por nós, não vão sós, não nos deixam sós. Deixam
um pouco de si, levam um pouco de nós”.E por falar nisso, ler O Pequeno Príncipe,
clássicos de Machado de Assis, de Shakespeare, Camões, por que não Gonçalves
Dias, José de Alencar, ou Graciliano Ramos, em fim... Ouvir “A Rosa” de
Pixinguinha; assistir a um especial de fim de ano de Roberto Carlos, dedilhar
um violão e ter meu ego regado pelos aplausos dos amigos; ver o mundo passando
pela maior e mais rápida transformação da história da humanidade
(transformações tecnológicas), acompanhar regimes ditatoriais sendo derrubados
por todo o mundo; o povo comemorar por todo o planeta a eleição do Papa
Francisco, o primeiro Jesuíta assumir a liderança da religião mais influente na
História da humanidade. Muito embora ainda não tenha sido o papa, um brasileiro
é pelo menos um Latino Americano... Cultivar a terra e colher os frutos, ver o
Brasil tornar-se penta campeão mundial de futebol, o Tricolor Carioca
conquistar o tetra no Brasileirão, minha esposa viajar centenas de quilômetros
para assistir a um jogo de futebol, ver meu garoto de dez anos sentir a
sensação de marcar um gol, minha princesa de quatro anos “encantar” dezenas de
pessoas com seu canto... Amar e ser amado... Ainda bem que deu tempo!
E por
fim, a ti meu garoto a quem dedico estas letras, foste um grande homem,
deixaste teu legado; conheceste mais que
ninguém os lados bom e ruim da vida. Lutaste até o “último” suspiro com
dignidade e sem murmúrio. Deixaste para todos nós, ensinamentos de que devemos
está sempre preparados. Que Deus o tenha do seu lado! Hoje que bom poder dizer,
ainda bem que deu tempo! Ah! Se isso não é um agradecimento, é pelo menos um
reconhecimento da grandeza do amor
gratuito do Pai celestial. Ainda bem que deu tempo!
Texto de Jurandi Pedrosa, numa homenagem ao seu irmão Fábio Pedrosa