Naquela noite, de 28 de maio... Éramos dez irmãos!!!

Meus pensamentos hoje, especialmente hoje, revisitam aquele dia 28 de maio de 2010, (após ler na rede social, um status de uma irmã minha) neles encontro o sentimento da perda, da indignação, da tristeza, da ponderação, do amor e do perdão. Nesse instante, meus gestos falariam bem mais do que milhares de palavras se eu não sentisse a intensidade de emoções mais nobres, mais fortes, mais reais; acho até, que não encontraria na “alma intocável”, coração endurecido, uma palavra sequer que desenhasse esses quatro anos de assassinato de nosso irmão, Cabo Paulino Sodré.
Retomo minhas escritas anteriores e recuo com a perversão de algumas palavras ou na antecipação de julgamentos; quando, por exemplo, na missa de sétimo dia escrevi “Por que mataram meu irmão? Por quê?” o fiz na tentativa de que dadas as circunstancias dos fatos, os influentes e “poderosos” à época nos dessem uma resposta. Seria de admirar se as tivéssemos. Nunca as obtivemos. E se os assassino-executores tivessem sido julgados, condenados, cumprido penas, ainda assim as respostas não nos convenceriam.Porque maquiaram cenas, adulteraram respostas, camuflaram fatos, acobertaram testemunhas ... e em nossas cabeças ecoava o refrão “Mataram mais um irmão”;quanto a isso, sei que cada vez entendo menos e se construo o discurso da vitimização, entendo nada.Normalmente, escreveria pensando na dor da perda, na inútil sensação de tristeza, acontece que as respostas  não estão conosco, são abstrações dentro de nós para nos fortalecer enquanto matéria, porque a partida precoce de nosso irmão deixou o legado de que ele de alguma forma doou a vida para nos proteger de um mal maior, doou a vida para não se deixar inebriar com os encantos da vaidade humana,  doou a “vida aos pés da cruz” por seus pais, sua filha, seus irmãos. As palavras de conforto, as poesias, as delicadezas de entes outrora desconhecidos me trouxeram essa resposta.
Depois daquele dia, a questão é que tive medo, muito medo. Os meus conflitos no inconsciente (curados por outras sensações) me cegavam para outras realidades. Quantas barrigas vazias varam a noite inteira? Quantos morrem à míngua sem um mínimo de cuidado? Quantas mulheres violentadas, espancadas e maltratadas pelo cotidiano sobrevivem e transmitem paz?Passados esses anos, outras cores, outro cenário: as despedidas, as dores, nos ajudam a estender as mãos e entender outras dores. Ao fechar os olhos de súbito, enquanto digito, me vem à lembrança das mãos e palavras de conforto de nossos pais, o pedido para que eu não “esbravejasse”, não lutasse contra os “grandes” que estavam no poder, não publicasse uma linha que denotasse acusação, que crescêssemos na esperança e na fé. Agora com as mesmas emoções com que escrevi algumas linhas, há quatro anos, trago esse tributo para compreender essas verdades. E não faz muitos dias, que nosso pai, com uma lágrima, no canto do olho, fixando no horizonte, nos perguntava: “Nunca soubemos por que mataram Paulino”. Sim, nunca!Na prática, para quem ele foi “servo” nunca houve interesse em desvendar essa execução. Nunca indicou um paliativo sequer, que pudesse dirimir nossas dores! Nunca ouviu nosso soluço, nem leu nossa história!Nunca soube de nossos sonhos! Nunca assumiu a fragilidade de cristão!Nunca!!! Em minha casa, enquanto escrevo, pelas mídias, apenas acompanho sua trajetória, o que me espantaria era se a reação fosse outra.
Deixemos tudo isso, para lembrar que naquela noite de vinte e oito, éramos dez irmãos, distintos, dois distantes e razão tem Deus em sermos tão desiguais; pois como diz a canção Ele envia seu filho amado para morrer em seu lugar, e com o sentimento de que Ele vive podemos crer no amanhã .Nesse caso,  a minha premunição é que estamos vivendo,revestidos do amor, com o coração para "perdoar e sorrir", acompanhados da reconstrução do SER, porque a saudade que nos quebrou naquela noite, hoje serve para remontar nossas histórias, recontando passos para continuarmos firmes, estendendo as mãos aos nossos pais, com boas lembranças, recordações de um irmão que como os demais, distinto, amou e foi amado por todos nós. Naquela noite, em que uma vida foi tirada, às  outras foram apresentadas oportunidades de crescer na benevolência, na caridade cristã, na fé, no amar ao próximo.Alegra-me saber o quanto podemos ser melhores! Caminhemos em busca de outros abraços, outras alegrias,outros irmãos,outros sonhos. De meu poema, a lembrança: somos nove irmãos e a minha dor não é a maior de todas.

Dois gestos, uma vida, diferentes histórias!

“ A vida é assim, simples assim, gestos eternos surgem do nada”, aos olhos de quem doa e aos olhos de quem  recebe; aos olhares de pessoas que conseguem fazer o bem sem olhar a quem, sem fazer ‘moeda de troca’,aos que perseguem a perfeição humana e cristã,  aos sentimentos de quem sabe sobre a vida e as relações nela contidas, de que tudo é uma passagem, nada durará para sempre. De certo, para alguns, os gestos expostos agora talvez não tragam importância, não deixem marcas, não façam diferença, não promovam nada na vida de ninguém; de mim, eu sei de meu coração, faço emergir o tempo todo o perfume contido em minhas Cartas ao Capitão. Quem o conhece? Quem sabe de sua história e o quanto ele representa em nossas vidas, em nossas histórias?
Recentemente em conversa informal com uma amiga, contei-lhe de como se dera a execução de nosso irmão Cabo Sodré; dela ouvi, de que não devo desperdiçar a vida com tristezas, não posso jogar fora minha alegria nata; devo acreditar sempre em minhas experiências e capacidades, preciso celebrar por cada vitória, reconhecer minha beleza apesar das marcas do tempo, que não devo apresentar semblante adocicado como se fosse um personagem; que devo ser forte para enfrentar as fatalidades, optar por ocupar-se primeiro com o lado bom de todas as coisas, agradecer por todas as lições ainda que escute a expressão “não sabe de nada”, que preciso ter fascínio por algumas coisas sem apegar-me demasiadamente, apostar a cada manhã no aprender e no ensinar de maneira involuntária; procurar ser simples e sofisticada sem necessariamente parecer arrogante, conter-me e posicionar-me quando achar necessário. Sou viva.  Ponderações a parte, outro dia escrevi em minha página social, algo que não é novo, refaço leituras dos grandes filósofos: “Sorrio, (sou)rio, só  rio_ mas não me basta; o choro é minha penúltima tentativa, porque dentro de mim, embora rio, correntezas de fé!
Quanto a isso, quando recebo uma observação de que aquilo que escrevo não soou bem ou de que parece plágio, (sim, já ouvi isso) limito-me a dizer, por exemplo, de que esse texto que aqui aparece “pronto” eu o construo há quinze dias, desde que meu pai viera  para passar a Semana Santa, dias em que falamos da distribuição do vinho, da partilha do pão, do verdadeiro sentido da Páscoa, da Ressurreição; dias em que ele falava “que em nossa casa é outra moral”, ali somos os donos, em que recebeu amigos, que compartilhou de prosas e de ensinamentos entre nós, em que sempre ao amanhecer, dizia  que estava melhor, havia dormido bem. Nossa, é tanta coisa! Mas lembro da reflexão dele ao dizer que em nossa casa, nós somos os chefes, ali sim, podemos ser respeitados, é nosso; nisso há pelo menos um amigo meu que veio visitá-lo nesse período e pode falar de alguma lição; depois do encontro o capitão disse de que havia dado uma orientação pra ele (achamos incrível). Com ele, aguço minha capacidade de ver e compreender diferentes gestos,  sei que estou e conduzo todas as minhas proposições na perspectiva de que o essencial é a aproveitar a utilidade da pessoa humana;parecer estranha quando todos nós precisamos ser iguais;  ser professor, aliás, está acima do “ato de dar aulas”.Remontar ou reescrever nossos diálogos é meu melhor desafio, porque apesar dos oitenta, da fragilidade da doença, das limitações encontra na memória tempo para cuidar das sementes,para contar “graças”,para apresentar novos conceitos,disseminar diferentes histórias.
O tempo, as lições, a velhice, os gestos, as indagações pontuais  me lembram histórias similares que paralelamente cantam glórias e espantosas surpresas, encantam com a sensatez, com o equilíbrio, com o dom de algumas palavras.  Enquanto finalizo este texto, lendo e reescrevendo, a chuva é minha motivação, chove lá fora; e o vinho, que era apenas símbolo da Páscoa, torna-se real nessa mesa para que eu escolha a melhor cor, a melhor arte, o melhor tom, afinal, nesses quinze dias, da janela do quarto, acompanhei com curiosidade algumas negligencias, outras vezes a assombrosa vontade individual de querer para mim todas as alegrias, todos os bens, todas as fantasias e poderes,como se além de nossa casa, nossa voz fizesse sentido noutro ambiente.  Enfim, minha inteligência alcançou até aqui, como paradigma prefiro continuar sem saber de muita coisa, o rio lá fora está mais cheio de águas mais escuras, opto em  não arriscar_ por enquanto, esses gestos, uma vida e diferentes histórias já me contentam, porque nessa passagem saltos altos nunca me fizeram bem. Para muitos, só é esquisito o ficcional, nem sei...

Minha Breve Cançao de Amor!!

Sonhei contigo esta noite
No escuro sopro do açoite
Dormi em teu colo antão,
Revi as flores dos campos
Daqueles amores tantos
Que flechou meu coração.

Lembro-me de teu semblante
Porque ainda sou confiante
De olhar-te outra vez...
Há tanto tempo a demora
Uma sombra me apavora
Em tudo que se desfez.

Te amo minha querida,
Razão de toda minha vida
Meu amor te ofereço...
Viajamos num corcel
Para este nosso céu
Eu nunca mais te esqueço.

Como invade a chama atroz
Que me transformou em algoz
De minha alma lembrei...
Que nossa história é infinita
Além de tudo é bonita
Amor, eu te recordei!

Não tenha dor nem piedade
Não chores nem de saudades
Porque tudo se passou...
Nossos blues não voltam mais
Já se apagou o cartaz,
Que o vento norte soprou.

Um espelho a noite clara
A mesma lua declara...
Circunstâncias e sofrimentos
Cantei num eco estridente
Amor restou a semente
Daqueles nossos momentos.

Ouvirás a melodia
Recheada de poesia
E recordarás minha dor!
A dor que jamais sofreu
Se quer tampouco entendeu
Esta minha canção de amor!
[...]
           José Antonio Basto

*Desaprender a lição, nesse caso, basta!!!

Em setembro de 2006, escrevi e divulguei um repúdio em resposta clara a um pasquim circulado pelas ruas de Urbano Santos. Apresentei argumentos pautados nos conceitos de linguagem defendido por  Marilena Chauí, provocando o sentimento de que a única coisa que nos diferencia dos demais animais é a linguagem.Depois sempre entendi que as idéias, as opiniões, as contravenções devem ser divulgadas, acatadas e respeitadas, no entanto , insisto em dizer que quem se ocupa em falar mal dos outros, difamando nomes, informando preconceitos,caluniando,provocando ira ou inveja  continua sendo ao meu ver invejoso (a), desocupado(a), covarde, desinformado(a), infeliz...não caracteriza em nenhuma hipótese a liberdade de expressão ou o direito de defesa de opinião. 
  De fato, cada um de nós é responsável por si próprio, somos inclusive, algumas vezes vitimas de nossos próprios erros,de inconsequências ou fragilidades, próprias dos seres humanos, evoluir para uns significa provoca-los, como se nosso estagio de evolução o ofendesse ou o diminuísse, nesse sentido os covardes agem assim: quando tomam partido são medíocres,outras vezes incompetentes,chegam à imbecilidade esquecem-se de que quanto mais desejamos o mal para os outros mais o atraímos para nós mesmos, fazendo de si uma pessoa amarga e negativa, afastando qualquer possibilidade de crescimento pessoal ou profissional. Enquanto isso, estamos convivendo diariamente com pessoas (ir)responsáveis, (in)fiéis, porém em que se isso nos credencia para a disseminação da  infâmia, da calúnia ou da difamação?Em que nos colocamos em posição de superioridade como se não tivéssemos  "telhado de vidro" ? É constitucional o direito da comunicação, da liberdade de pensamentos, do direito à resposta, contudo é prudente lembrar que na mesma lei de direitos individuais e coletivos é assegurado a inviolabilidade  à  intimidade, à  vida privada e a imagem das pessoas.
    Por último, queria poder concordar com um colega meu, quando dizia que todos nós devemos ter orgulho daqueles que escrevem alguma coisa, é como se já fosse muito o fato de saber escrever, mas não concordo em reconhecer discípulos que insistem na covardia, na mediocridade, na pequenez de ideias;para mim, não merece respeito quem quer dizer algo a outrem ou sobre, e se esconde por trás de máscaras, de fofocas,se esconde com pseudônimos,deixando a vitima sem direitos para defesa;concluindo trago um recorte de um pensador quando diz que só os mortos e os loucos não mudam de opinião, nesse caso quem insiste nesse tipo de literatura parece-me que em sã consciência é morto para tantas oportunidades ,não vislumbra mais nenhum tipo de crescimento, de sabedoria,  derrotado no sentido literal das palavras. Eu sou Nilma e apesar das criticas, restrições de alguns,por abusar casualmente das palavras ou parecer arrogante no trato com elas, ou no trato com pessoas, nunca utilizei apócrifo(nem precisei) para colocar a idoneidade de ninguém em risco, vivemos a democratização da palavra, da leitura e da escrita,democratização das mídias, asseguradas em forma de lei através da expressão de atividade intelectual, desprezemos os que violam e desvirtuam as leis preferindo o anonimato.

                      *Texto escrito em 2008, reeditado em abril de 2014.


                              

Alguém: Cartas ao Capitão

Cada tempo é um tempo”. “Hoje conheci uma nova Urbano  Santos”. Quem saberia me dizer isso, nessa tardinha de chuva, em que os ventos sopram rosas e roseira com rumores do bem, para uma nova direção?De onde viria mais uma sabedoria simultaneamente simples, singular e tão  paradoxal? Ora, passados esses sete meses, ausente da cidade realmente ela não é mais a mesma; alguns conhecidos não circulam entre nós, amigos e vizinhos partiram para junto do Pai, deixando saudades, e o meu mentor, em seu papel real diz: “Eis-me aqui, para fazer tua vontade, Senhor”. Vim pra minha terra  matar a saudade, reconhecer amigos e sentir-me dono do pequeno lar.
De onde me vem essas esperanças e emoção, não refletem nem um pouco o julho de 2013 em que o estado de saúde era bastante frágil, o acesso à viagem quase impossível, os meses iniciais de internação seguramente insuportáveis, a imobilidade,os transtornos com o tratamento,  enfim...Ah, como o tempo nos envolve em descobertas e aprendizados, persistindo no direito à vida, à alegria, ao otimismo! E como não sorrir para a vida, para os semelhantes, para as adversidades, para os descaminhos da diplomacia? Como não ser menos arrogante, menos cruel,menos exigente, como não  ser uma nova pessoa ?Nesse dia, nessa tarde, da chegada do ilustre cidadão, sou tomada por emoções e nelas, caibo com os mesmos afazeres, com a mesma herança, com a mesma simplicidade.Caibo mais ainda com a mesma fé.As minhas premunições eu as exponho e são tão variáveis, opto pelo discernimento, pelo escolher o bem; olhando para o ser humano sem tratá-lo pelo seu nivelamento social e político; “essas cartas”, tem sorrateiramente me dado o direito de ser mais feliz; tem me oportunizado uma reflexão contínua. Que lá fora, diferentes pessoas acumulem raivas e disputas, que percam tempo maquinando contra seus pares, que se envenenem até a alma; nós, nesses sete meses, continuamos confiantes, através das falas do capitão, que vale a pena lutar por uma vida digna, de alegria e fé.Que dá trabalho plantar, mas vale muito a pena colher!
Eu já havia começado a escrever essa pequena história, quando na tarde de domingo, a Globo exibia o filme Cartas para Julieta, de uma aspirante a escritora, tendo como protagonista Lorenzo... por indicação, assisti às ultimas cenas, e em nada se parece com essa minha história. No entanto, levamos o capitão para ver as cenas conosco, e eu procurando  concluir as minhas escritas, ainda desordenadas, desde o dia vinte, percebi que já havia assistido algumas vezes, ao filme Cartas para Deus, indicamos para centenas de pessoas, organizamos grupos para assisti-lo,e com ele posso fazer analogias ; no filme, o protagonista sofre de câncer e faz cartas diárias para Deus na esperança de que algum anjo pudesse salvá-lo,acreditava tanto que nada temia.Quando lembro disso, me refiro às inusitadas observações do “Capitão”, há dias, que ao abrir os olhos, espontaneamente começa a agradecer a Deus, pelo dom da vida, pelos filhos, pela aceitação do  sofrimento, por ter acordado naquela manhã, por está doente, por ter podido retornar a Urbano Santos, diz tão claramente: “Obrigado, Senhor”!Pois é, agradecer diariamente e nos oferecer devem ser nossa sentença, pois nossa capacidade de “ser” melhor e mais lúcido, não pode esperar que estejamos naturalmente acamados.Em Coríntios encontramos :  Porque já é manifesto que vós sois a carta de Cristo, ministrada por nós, e escrita, não com tinta, mas com o Espírito do Deus vivo, não em tábuas de pedra, mas nas tábuas de carne do coração.” 
Claro, que não sou acreditem, a bondade em pessoa; não acerto todas as respostas, porém, em tempo, reconheço quanto posso progredir, crescer, ser menos medíocre, menos exigente, nessas tardes, umas das mais tenras de nossas vidas, em que escrevo Cartas para um capitão, transcrevo ainda o trecho da  famosa melodia que diz “fica sempre um pouco de perfume, nas mãos de quem oferece rosas, nas mãos  que sabem ser generosas”. O que posso dizer com tudo isso? Nosso pai está doente,sem nenhuma reclamação, com o mesmo dom de enxergar,de amar, de aceitar, de nos lembrar que a vida pede calma, doando lições e sabedorias. Para nós que o acompanhamos diariamente numa paráfrase da canção, nos dá alegria, coisa simples, singelas, mas aos olhos de Deus é das artes a mais bela. A ternura se manifesta em mim, através dessa Carta ao capitão.


Dos oitenta anos aos 180 dias!

Durante esses últimos seis meses, venho tendo inspiração para a escrita que pretensamente qualifica parte das lições adquiridas com meu pai. Espero não está travestida de alienada, de repetir clichês esgotados de significação ou por pura falta de imaginação esgotar o vocabulário e não apresentar   nenhuma  conotação. Aliás, para as mentes vacantes, atordoadas em suas limitações isso não representa muita coisa; aos que emitem impropérios, escrevo sobre o que convivo, dou-lhe forma e significado, penso na arte assim;  fazendo disso uma corrente boa em torno daquilo em que confio, que faz sentido para mim, lido com o paliativo dessa limitação atual.
Mas, vou concentrar mesmo minha escrita na acepção dos “cento e oitenta dias”; na incitação de que em seis minutos, com um único gesto posso fazer muita gente feliz; que seis horas são suficientes para mudar-se completamente o rumo de uma história; que em seis dias ou seis semanas o mundo anuncia novas descobertas e uma enxurrada de informações escorre entre os homens. (Seis minutos... lembro-me da história dos “Onze minutos”).E nessa onda, passei mais de seis dias, para entregar-me a casualidade do momento, juntar sentidos e sentimentos, realçando que há seis meses estamos umbilicalmente ligados pela internação de nosso pai. Só hoje, através de minhas leituras, recordo o que uma criança de seis meses é capaz de fazer; há algumas que com essa idade já estão engatinhando; outras, procuram com as mãos descobrir o mundo; dependendo de seu equilíbrio, se vira de um lado para outro; reconhece o rosto de alguém familiar...Depois de oitenta anos, há dias em que assim se encontra nosso pai; nesses cento e oitenta dias não seria ambiguidade dizer que vivemos esse privilégio, o desprovimento de algumas coisas nos fortalece para outras aprendizagens . Do surgimento do sol de um dia, ao despontar da lua de outro, convivemos com as faces de Deus,(é assim que sinto)  nos gestos de dor, de vigília, de agradecimento.Só quem vive ou viveu momentos iguais, sabe sobre o que estou falando; transcrevo o que leio nos semblantes de meus irmãos e de minha mãe!
Quando pareço reticente em minhas expressões, ainda trago lições de plena atualidade ditas por ele: “fazer dois rastros de um pé só”,é assim que ele nos responde de vez em quando; é assim que nos sentimos quando somos açoitados pelos problemas,  isso me reporta à passagem de Pegadas na Areia, reescrita por Pe. Zezinho, em que o Senhor responde ao filho na hora do sofrimento “quando vês apenas um par de pegadas na areia, nas horas de angústias, foi exatamente aí que eu carregava você”, prefiro entender da maneira mais positiva que nessa missão, o Senhor não nos abandona, se nos arrastamos, se somos carregados no colo, se parecemos frágeis,Ele estará conosco em toda a caminhada. Essas lições serão lembradas para a eternidade, pois meu pai , mesmo quando se arrasta ou é carregado no colo,faz nascer em nós, novos homens e mulheres, mais alegres, mais felizes, mais fiéis  sem deixar  que os abissais da patologia nos tire a esperança de viver mais quantas vezes  nos for permitido os cento e oitenta. 
Enquanto escrevo, milhares de pessoas estão em filas de hospitais, exigindo atendimento, outras centenas morrem sem as condições necessárias para a sobrevivência, dezenas delas desejam chegar aos oitenta com a vitalidade e a lucidez com que nosso pai chegou; sem ser exatamente uma analogia, mas cabe  razão ao  Mario Quintana  quando se vê já se passaram os seis minutos entre os primeiros sintomas e o primeiro  atendimento,já ficaram para trás as quase seis horas de sufoco e de viagem até a capital,restaram na lembrança os primeiros seis dias de atendimento na UTI, já não existe mais as idas e vindas do hospital que haviam há seis semanas; há seis meses, em cento e oitenta dias quanta coisa é possível fazer. O bom deve ser isso: a mutação,  e eu perguntava  isso para alguém: o que você acha que dá para se fazer em seis meses? O que mudou em seu modo de ser, de pensar e de agir nesse espaço de cento e oitenta dias?
E chegando ao final, avivo minha memória para dizer que de oitenta a cento e oitenta a jornada é longa, os caminhos são de pedra, os declínios incomodam, mas compensa viver todas as horas, todos os dias, ano após ano, com a mesma intensidade, com o mesmo desejo de ser, de compreender, de aceitar; e mais razão terá Quintana  com essa citação “ a vida é uns deveres que trouxemos para fazer em casa”, quando se vê já se passaram oitenta, noventa, cento e oitenta... e aí, não dá para voltar e pedir uma nova oportunidade. Essa é minha arte, que é simples, como dois e dois são quatro,  não é Gullar; compartilhando histórias de amor, de serenidade e de muita fé!Aguardemos mais cem vezes cento e oitenta porque esse número  não é pontual, quem sabe você está aqui, quem sabe!Joguemos semente, plantemos o bem em todas as nossas horas!



Boa noite, ó senhora!




O meu peito clama por ti
E pede para insistir
Uma chama que me apavora
Soluços da solidão
Apertou meu coração
Boa noite, ó senhora.

Lembras do nosso amor?
O que resta agora é dor!
Porque não te tenho mais,
Minha sorte é o futuro
Te amando atravessei muros
Fui desgraçado voraz.

Receba meu boa noite
Coberto de sangue e açoite
De recordação o estandarte,
Foste a única dos meus sonhos
Em sentimentos medonhos
A musa de minha arte.

Viajei no firmamento
Em pântanos de sofrimentos
Das lágrimas que derramei
Por ti é que venho sofrendo
E ninguém me entendendo
Os dias que eu chorei.

Não quero dinheiro nem ouro
Do mundo nenhum tesouro,
Nem o céu, a terra... o mar
Amar-te apenas eu quero
Somente a ti fui sincero...
Mas pode me deixar!

Meu grito ecoa no infinito
Da prata ao cobre... o granito,
As forças do coração –
- Canto pra ti minha amada,
Sombra da luz consagrada
Louco fui -, peço perdão!

Perdoa por não ter lutado
Num duelo de reinado
Minha espada embainhada!
O mundo pode girar,
E tudo enquanto mudar
E o que valeu não valer nada.



Fique com esta minha lira
Um poema me inspira
Já vou! Retine a espora...
Disparo como um trovão,
Nas rédeas do coração
Boa noite, ó senhora.
( Poeta José Antonio Basto)


Postagem em destaque

Madalena, Madalena que seja de paz sua oração

  N esse mês  da Mulher minha voz vem através da Rita de Cássia filha da Madalena , e para começar , minha tentativa não definirá os aspecto...