A muda murcha, nasce e renasce: é a vida







Na didática, nos afazeres do dia a dia, todo planejamento é flexível; depois de minha última publicação, pensei e até idealizei um primeiro texto para o inicio desse ano,  algo que falasse de saudades das coisas boas, das lembranças saudáveis, dos feitios deixados em 2015. Apostei nisso, por alguns dias, é meu método de escrever, falaria de estatísticas positivas, esboçaria um relato de pontos inimagináveis que fomos capazes de avançar, das trajetórias, da confiança, do resgate de escolhas e decisões. Mas não, opto por escrever outras coisas, quiçá seja até repetitiva , traga uma história sem graça, uma mistura de enredos,  porém e daí? Ousei publicar e isso de algum modo  (para mim) já é inusitado.
Comecei a idealizar esse ensaio desde o dia em que assistia com meu sobrinho ao filme “Já estou com saudades” sob minha ótica, uma história que fala de amizade, de confiança, de autoestima; ao sair,  ficamos por ali, ainda conversando sobre aquela experiência: quantos de nós temos bons amigos capazes de fazerem qualquer coisa em nosso favor, para nosso bem? Quantos de nós somos motivados a permanecermos firmes na amizade mesmo quando o outro “falha”, tropeça,  “vacila”? Quantos de nós somos realmente amigos uns dos outros, sem questionar, sem julgar? Quantos? Revisitamos as redes sociais, os contatos de whatsapp, de facebook , outros aplicativos (são tantos) e a juventude tem todos,  nessa onda de avanços e modernidades , respondemos: temos milhares de “amigos”. Fiquei dali, dizendo a ele que brevemente minha amiga Lucinha faria cinco anos de falecimento, e ele perguntava sobre o motivo da morte, eu respondia : um câncer tão maldito a levou precocemente. 
Passados esses momentos, logo no primeiro dia do ano, meus pais receberam a visita de minha madrinha, amiga deles de longas datas , trouxe para a conversa , boas lembranças, votos de mais saúde, esperança e fé! Não a vemos abatida, fala sempre como se em sua jornada ainda houvesse “tempo para realizar grandes sonhos”, meu pai só escutava,claro ( fala pouco demais perto de visitas), citava outros nomes,  amigos comuns , lembrando de alguns que já se foram, faz análise da conjuntura política brasileira, tem projeção para quase tudo. Lá de dentro, em meus afazeres domésticos, pus-me a contemplar e admirar aquelas palavras como se além do carinho nelas transmitidas, elas trouxessem cor; conjeturava comigo mesma: tão bom chegar aos oitenta com essa capacidade, essa segurança, e aparente discernimento. Tão bom ainda ouvir de o outro dizer: não, eu não me esqueci de vocês, lembro sim, é que nem sempre posso visita-los, falta-me tempo, alguém para acompanhar.  A par disso, meus pais durante muito tempo estiveram com humildade, dispostos a ajuda-la em sua trajetória política; não houve uma vez sequer que tenham dito não, e quando questionávamos, a resposta era a mesma: nós somos amigos. Retomando ao filme, é um dos exemplos que tenho ao falar de amizades, pensando bem, há fineza demais nesses sentimentos dos quais cito. Meu pai, de suas lúcidas lembranças, tem clareza de que quando chegara aqui na década de 60, era soldado da policia militar, lembrar-se de quem lhe estendeu a mão quando decidiu “pedir para sair”; de abdicar de exercer a profissão, do trabalho que teve para conquistar e permanecer com seu sobrenome intacto ou de ter boas amizades. Nisso, temos milhões de motivos para agradecer.
Nos primeiros dias do mês, fiquei meio assim: debruçada unicamente em experiências e pensamentos positivos, não deixei que “o inimigo” se apoderasse de mim, dei passos à frente, li uma ou outra página, assistia às novelas brasileiras, situei-me das anedotas e piadas que circulam em redes sociais, usei alguns temperos para dar mais sabor, “a vida não para” para olhar nossos movimentos. Vencemos ! Estamos em 2016! Organizei meu tempo mais uma vez, para assistir ,  por indicação, (dessa vez com uma irmã e outro sobrinho) ao filme Quarto de Guerra , sem ler direito a sinopse, achei que seu enredo fosse sobre guerra, confiante em quem indicara, não desviei o olhar nenhum segundo; filme bonito de ver, de ouvir falar, de comentar, de tecer críticas, de extrair lições, de reescrever! Eu podia trazer as citações bíblicas referendadas no filme, compartilhar ainda os desafios enfrentados por um casal que por excesso de vaidade quase rompe o relacionamento, do protagonismo e da lembrança da guerra literalmente, no entanto, não quero contar sobre o filme, não é essa a intenção, como lição para mim, cito apenas : “para vencer a guerra, é preciso usar as armas certas” e nesse caso, a arma infalível é a oração! Dei minha atenção necessária ao filme, muita gente saiu dali, lacrimejando, tocada com a sensibilidade de suas próprias experiências. E nele também há fortes demonstrações de amizades... Voltei-me para as nossas “janelas”, para os nossos meios e a resistência dos dias, meses, anos; nossos anseios e preocupações;  e a fé,  aquela dita desde o principio de minhas primeiras histórias permanece a mesma. E porque  “amanhã será um novo dia” apesar das dores e das contrações, esse ano, vou de um curto ditado para espairecer: “ toda muda murcha,” ponto.   Mas ao tempo certo e com cuidado volta a florescer . Confiemos mais em nós mesmos , confiemos em nossa capacidade de ser e de poder convencer, porque da “vida não se leva nada” ela vira, revira, volta e nossa caminhada precisa ser  rumo à vitória, às conquistas coletivas, às revelações... e se pela manhã houver outras invenções, alterno os títulos, provoco outras perpetuações, afinal  tudo que há em mim, pode ser melhorado e assim,  faço uma paráfrase do que disse Lispector ‘ escrever é a maneira mais simples que encontrei de dizer o que sinto: “Só sei que nada sei”. E completo com uma assertiva dita por um idoso, vizinho de meu avô materno, lá do Povoado São Bento e algumas vezes repetida pelo meu querido pai: Cada um para o que nasce! Ofertemos as mãos, os braços e abraços, nem sempre precisamos de confetes para colocar o bloco na rua .



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