E a doce Maisa era Maria: nossa irmã, nossa filha!



Há alguns dias , aliás, quase dois meses não escrevo uma linha nessa página, não dediquei tempo, depois do dia 09 de outubro, data em que lancei meu livro na Feira do livro em São Luis. Tive diferentes motivos, especialmente para o agradecer, até fiz algumas linhas, mas fui enfraquecida por uma crise de pós ansiedade, que me deixou como aquela menina : desprotegida, pele ressecada, olhar latejante, pedindo colo de mãe.  E era eu quem estava lá, adulta, naquele momento lançando um livro? Quantas mãos e corações de bem me ajudaram a chegar até aqui? Incontáveis mãos! Gratidão por tudo, em toda hora!
Até aqui tudo bem, tropecei noutras situações e fui deixando para depois minha planejada carta de gratidão por aquele dia que foi tão mágico, tão surpreendente, inimaginável, foi um presente de aniversário. Mantive-me indo e vindo para olhar a vida pela janela, pela vidraça, de lá, eu nunca perdia meu entusiasmo, minha esperança, minha fé. E meu novembro teve de tudo para ser só doce; fui à Chapadinha, dessa vez prestigiar a peça Pão com Ovo, estendemos um pouco  com mais  alegria; dias depois porque também considerei gratificante fui ao Show de Diego Fernandes na cidade de Anapurus... aniversários, histórias lindas de superação podiam ter sido contadas!
Já é meado do mês de novembro, dia 22, estou aqui bem perto da janela, na poltrona, ao lado de meu pai, quando uma voz me surpreende para contar sobre a estúpida e violenta morte da pequena Maisa! Era dia de aniversário, de alegrias, de comemorações e as outras Marias que são mães, irmãs e filhas destacaram-se para nossa pacata cidade. E aquela manhã sangrenta maculou nossa imagem, nossa cidade, encheu-nos de vergonha, de “ódio”, de revolta coletiva, de indignação, de dor... Lembrei-me por longos minutos do  28 de maio de 2010... naquela manhã de domingo, daquele  ano, eu nem sabia, mas tive medo, muito medo de saber :“ Por que mataram nosso irmão?” E o ranço da dor era de todos os tons, o sentimento de repulsa  tomava conta não só de mim, outras milhares pessoas   foram contagiadas, porque a doce menina podia ser nossa irmã, nossa filha; pode ser que de verdade tenha sido enganada com um doce, um biscoito, uma balinha...  e irrevogavelmente o seu destino ficou entregue às mãos de um selvagem, sem sensibilidade, sem tato, sem  amor. Quanta coisa melhor aquelas mãos doentias podiam ter  feito!  Mas a pequena,  acuada e sem forças diante de um animal, não pode sequer  valer-se do saber falar, do saber ler com tanta desenvoltura; a docilidade infantil por nenhum segundo fora preservada, deixada no matagal ao relento como se também fosse selvagem. O que dizer de um ser humano desses que nos indignou  tirando uma inocente vida de maneira tão brutal? Fomos todos nós feridos com um duro punhal, todos nós! Estamos de luto! Ficamos de luto! Aos mais sensíveis, minha solidariedade à família, à sensibilidade e intuição da professora Aldalice que cultivava uma cultura de paz entre membros da pequena Maisa, para edificar, para proteger! Mas dessa vez, não houve tempo de curar a dor, de aliviar as convulsões, de levá-la no colo, de brincar com a sacola de pães... Não, não houve tempo! Retomo para reescrever Lispector : Muitas coisas que nos  aconteceram quiçá piores que esta, perdoemos?! No entanto, esta não posso sequer entender até agora: É irracional! É impiedoso! É desumano!É impraticável! Nas primeiras horas, não há o que perdoar, não há.
Por uma orquestra de paz: de mãos dadas
E o que já estava triste, “sem cor sem perfume, sem rosa sem nada”, foi tomado por alguns que nem pensaram na menina, desviaram o olhar, e diante da trágica situação da menor, tentaram acabar com a nossa pequena cidade, como se fosse  a “madrasta má”! Com insensatez, implantaram o medo, praticaram o crime da violência, do vandalismo, na quebra de equipamentos e de prédios necessários para o município. Vergonha mais uma vez! O sentimento de luto não estava esquecido! E eu tive medo de novo de saber as respostas, porque as minhas Marias, todas distantes, de longe só lamentavam aquelas  cenas de guerra que circulavam nas redes sociais através de fotos, de vídeos! Nenhuma voz! Nenhum oi! Nem mesmo a OI; apenas os sons das balas não “letais”, dos foguetes, do helicóptero, dos carros, das motos; e o meu medo, o choro contido. Lembrei-me dessa vez de meu pai: em nossa infância, já bem remota, ele nos orientava, ao ouvir tiros por perto, deitem-se! Lembrei-me também (para sorrir) da primeira vez que um helicóptero pousara em minha cidade, estava no rio... Triste e dolorosa foi aquela terça-feira, dia 24 de novembro, em que minha doce irmã , encontrava tempo e palavras para brincar no whatsap!  E hoje , já são sete dias da brutal morte da pequena Maisa, são cinco anos e seis meses da morte de nosso querido irmão e porque nem tudo é uma questão de saber as respostas, de provocar com mais perguntas, contemos as partes boas de nossas histórias, compartilhemos o que vislumbra nossa amada cidade,  dos avanços, das oportunidades! Nesse episódio, na terra prometida em que nasci, cresci, estudei e trabalho,  cultivemos  uma cultura de paz, de harmonia, de diálogo, da distribuição do amor porque esse efeito colateral vale a pena ! Essa orquestra sim,  deve ser planejada!Continuemos a amar para que esse sofrimento ganhe outro significado. Em minha última lágrima, “Maisa nem precisaria morrer”, e  nem se afastar tanto de nós,porém, as nossas mãos soltas, deixaram-na ir para mais longe! Cantemos o amor que fertiliza os abraços! Cantemos o amor!

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