Na falta de ar, de oxigênio, de UTI, dos excessos de burocracia

Nossa esperança



Eu falaria hoje de qualquer outra coisa, escreveria sobre a chegada do Papa ao Brasil, das manifestações avassaladoras ou outros movimentos que estão em evidencia nesse momento, porém, há dez dias trago parte desse texto em minha cabeça, reorganizo  a cada dia, acompanhando uma matéria aqui, outra ali,o texto lateja,  sinto-me em condições (na medida sensata) para escrevê-lo; não resta nenhuma dúvida de que estarei tocada pela emoção, aliás, escrever para mim, nunca foi tão difícil. Escrever não é  tarefa fácil  para quem está com um paciente em UTI, mesmo assim com poucas palavras, trago meu grito de socorro.
Mas hoje eu preciso escrever sobre o dia em que meu pai passou mal, com problemas respiratórios e teve que ir às pressas para São Luís, era quinta-feira, dia onze de julho; dia da Festa de São Bento, no povoado de onde minha mãe é natural, depois da saída dele do hospital municipal, lembrei-me justamente de algo que ele gosta de nos lembrar “temos mania de chamar São Bento só depois que a cobra morde”. Pois é, desde o dia quatro de julho, mais precisamente meu pai estava sentido dificuldades em engolir, engasgava-se com uma gota d’água, às vezes evitava, dado o sacrifício que havia se tornado em digerir qualquer alimento, convivemos com ele, e sabemos o quanto o Mal de Parkinson tem afetado seu organismo, sua capacidade motora, seus neurônios, enfim... em nós, não passava pela cabeça que de uma hora para outra ele pudesse ter crise de falta de ar. De verdade, naquela hora, não sei por qual tipo de sentimento fiquei mais tomada.
Os primeiros atendimentos foram feitos aqui, com o uso de oxigênio, com a atenção médica e de enfermeiros, com os cuidados com a nebulização durante a madrugada, com a indicação para que viajasse imediatamente e até mesmo com a sua própria voz quando apresentou “melhora” e dissemos que viajaríamos, concordou, perguntando: “Será que eu aguento?” Sobreviveu, graças a Deus.  Ficou os dois primeiros dias, na CTI da UPA da Cidade Operária, depois, transferido para a UTI do Carlos Macieira, muito boa, conforme vários depoimentos,  não preciso dizer que a equipe multiprofissional está formada, os leitos são bons e novos, monitores mecânicos, modernos equipamentos, estação cardio-pulmonar, contento-me que haja tudo isso, mas e a equipe médica, está realmente completa?  Chegando lá, dia catorze, para a visita noturna, o médico do plantão já pedia que autorizássemos a Traqueostomia procedimento que ajudará na recuperação e evolução de seu quadro respiratório, mas, até agora ou pela falta do anestesista ou do cirurgião, não foi possível realiza-la. E hoje já são onze dias com a respiração mecânica. No meio de milhares de brasileiros que precisam de atendimento urgente, está meu pai, que talvez nem lembre o que está sendo discutido pelo CFM, nem saiba que as últimas pesquisas apontam que no Maranhão para cada dois mil habitantes haja apenas um médico, não saiba que o governo federal propõe o Programa Mais Médicos com a intenção de melhorar as infraestruturas  e levar mais médicos para as regiões mais carentes.
        Em meio a tudo isso, está nossos corações, nosso pulso, nossas vozes que a cada visita demonstra esperança e atendimento digno naquele local, está o quase cansaço de não ver o dever cumprido pelo que estabelece as normatizações, está o descompromisso de algumas equipes em não querer dar as informações precisas,  a nossa impotência humana , está a nossa dor, ao ver nos olhos de meu pai, o desconforto e inquietação com toda aparelhagem, está a nossa fé e a busca pela excelência através da oração.  Está o  nosso apelo para os atendimentos urgentes  que  “é de poucos dias, de poucas  horas para ser mais preciso”. Por isso,  falar da falta de ar ou dos excessos de burocracia, é falar de milhares de pessoas desprotegidas em seus direitos,dos descontentamentos, das perdas irreparáveis,  é falar de deveres não cumpridos...Eu até falaria sobre outras coisas, mas, ficaria desprotegida, incompleta, indigna  e aos que criticam a importação de médicos, julgando uma violência à legislação, concluo com algo bem simples “ o melhor é falar de flores”, porque em nosso país os excessos e os descumprimentos de leis valem muito mais.

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