Depois dos quarenta: (SE)senta ou (SE)tenta, escolha!

Encontro em meu caderno de anotações, algumas linhas escritas sobre as descobertas depois dos quarenta, palavras aleatórias, prolixidade, nada original. Vejo-me agora nesse “status”, ora cabeça bem equilibrada, bem conservadora; ora envolvida em desejos de aventuras, de descobertas, ouso ser mais determinada, interesses esdrúxulos; sem forçar a barra, em minha cabeça não deixo mais lacunas para as frustrações, lembranças tristes ou cumprimento de todas as regras,  aprendo a perdoar verdadeiramente, esqueço medos bobos, deixo de lado mágoas ou ressentimentos, saudosismos da juventude, ciúmes doentios, coisas que sei, não voltarão mais (Nesse campo,há  uma professora que só usa palavras de otimismo, insiste em dizer que estamos muito melhores do que  supomos estar, “basta olhar as fotos”) Sempre que posso,nas lidas do dia, agrado aos pares,com ponderações,com atitudes, com autenticidade, menos rispidez, recomendação que necessariamente não está só nos livros.
De qualquer modo, trouxe algumas lembranças do longo tempo de criança, boas, é claro... dos demorados banhos de rios, das travessuras nas areias da rua, das farofas improvisadas, dos K-suco, dos vestidos de chitas, das bonecas de pano, dos carrinhos de brinquedos, dos desfiles de princesas e rainhas, dos banhos de chuva,dos jogos de petecas e castanhas com os irmãos,do aprendizado com as surras de cipó, das primeiras letras nas paredes da casa,dos chibés com peixe assado,  das casinhas no fundo do quintal,dos lençóis costurados a mão,dos cabelos louros e encaracolados, das idas apesar de tanta recomendação para o interior dos avós,  das saias de “pregas” do primário,das fugas constantes dos deveres de casa,da primeira bicicleta de nosso irmão mais velho,dos ciúmes entre nós, enfim; francamente, olhando hoje para trás,posso lembrar como sempre foram cuidadosos nossos pais.Quanta ternura! Quanto carinho trazemos de lembranças boas de nossos pais!Quanta sabedoria aprendemos com as simplicidades!Quanto elo para nossa formação pessoal!Nenhuma cicatriz que não tenha sido curada!Nessa história, trago homenagem ao menos às duas irmãs minha: uma acabou de completar cinquenta, outra; completará brevemente quarenta, diferentes em praticamente tudo; amáveis, dóceis, prestativas, não medem esforços para ajudar o próximo, capazes de fazer o melhor pelo outro, sem muitas vaidades; diferentes em praticamente tudo. Está certo! Quem disse que por sermos irmãs, precisamos ter preferências e personalidades iguais?
Foto Fernanda Sodré
Na verdade, quando escrevo, reflito sobre os onze meses do estado de saúde de nosso pai, no mês de maio,28, acolhemos a missão de comemorar os quatro anos de passagem de vida de nosso irmão cabo Sodré,e a vida sempre segue,  com isso,preciso apropriar-me de virtudes que me garantem uma melhor qualidade de vida; as  revoltas,os relacionamentos espúrios, as traições sorrateiras, os conluios, as tristezas,as invejas  nada disso me pertence.E é assim que  tenho dito para minhas irmãs,aliás, dito  a nós   que em lugar de ansiedades, frustrações, aborrecimentos à toa, preocupações com o dia de amanhã,desolações,de culpas,de preconceitos e contradições, que tal olhar para a vida e vê em cada esquina uma oportunidade! Entender por exemplo, que a necessidade de estarmos “enfermeiras” hoje nos torna mais humanas, mais cristãs, mais leves, mais felizes!Elevar a alma, sendo uma filha melhor, uma irmã mais carinhosa, uma mãe otimista, uma amiga sensacional! Contemplar os momentos do equilíbrio, da lucidez para também aprender sobre aquilo que os anos nos ensinam!Para nós é essencial o resgate dessa idade, quanto a isso, as diferenças e imperfeições servem para nos aproximar, só para isso. Falo da motivação, da energia, da descoberta em poder fazer pelo outro, em “ser ponte” porque o ser feliz,  implica em querer paz de espírito, tornar-se melhor. Entre minhas irmãs, devo ser a mais sonhadora, não a mais bonita, contudo, em tempo, reconheço que a beleza nunca esteve em mim, só pela aparência física, nas curvas perfeitas, em estatura desejável, nos olhos bonitos, nos rosto bem desenhado,pelo contrario, posso encontrá-la aqui,com todas as sensações que aprimoro em mim,em minhas escolhas e decisões.
Enquanto centenas contam virtudes, promovem a imprudência, disseminam insensatez, nessa idade pretendo encontrar tempo para ver a beleza na dor, “no prato de abóbora” da criança lá do mato, aprender com o mural feito de palhas de buriti ,ouvir os anseios de quem nunca soube o que é oportunidade,”ser ponte”, estimular a leitura, mesmo quando pareço arrogante nas palavras, servir ainda que haja incompreensão, agradecer pela família, por  meu lençol, minha cama,meu pão diário, meu teto, meu trabalho, minha correria, minhas amizades. Não existe em nada homogeneidade, não há um único paradigma que um dia não seja quebrado. Às minhas irmãs, que são as melhores e maiores amigas com as quais eu posso contar, não terei outra palavra senão de agradecimento, e como entre nós, há uma única Maria, mas todas se permitem adotar esse nome, usando clichês, depois dos quarenta ainda há tempo para: plantar, sorrir, colher; de estudar, ensinar, aprender; de ser, estar e permanecer. Há tempo e espaço para todos, “a gente” senta, inventa ou tenta; a escolha está em nossas mãos de tornar nossos dias melhores!E porque hoje essa é minha voz, meu argumento: tentemos!





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